PRESENTATION COCKTAIL OF THE BOOK “VOYAGE”

Olhar sobre as pequenas coisas

Poderá alguma vez a mente compreender o enorme?

— Cristina Campo

O olhar de Igor Sterpin, belga de origem portuguesa e russa há anos residente em Portugal, volta-se, sempre, sobre as pequenas coisas. Um corpo que passa, fugaz, por uma rua estreita, do outro lado de um vidro translúcido, sob a chuva, metamorfoseado em breve, quase indistinta, silhueta; o reflexo da luz bruxuleante dos candeeiros sobre uma calçada de granito molhado da chuva, à noite; um aspecto do rio quando, turbulento, ameaça as margens sobranceiras, ainda há pouco serenas; os vultos dos que partem para um qualquer destino num autocarro nocturno; um bando de crianças dos bairros populares brincando nas ruas, sob o sol, enquanto, no ecrã que se recorta, abrupto, sobre um muro de granito ao fundo, as sombras desenham um cinema animado de figuras, tais são alguns dos focos preferenciais deste olhar, enternecido olhar, procurando, sob os traços da imensa mole humana por entre a qual se desloca, o que seriam os vestígios perdidos, desencontrados mas credíveis, do que seria uma bondade imanente ao mundo. 

Ou, por via dela, da manifestação visível de um sentimento de pertença, que não seja por nada comprometido com a raça ou a cultura, com o estatuto social ou com qualquer outro modo de suspeita, mas antes que se abra, através do pequeno, do breve, do íntimo, a uma espécie de luz mais geral, à percepção revelada de um todo íntegro, cuja partilha é sem fim e sem princípio, e cujo motivo estaria no mundo desde o seu início, qual sinal de antigo mandamento universal. 

Neste sentido poderíamos dizer que o olhar de Sterpin pertence, no índice dessa sempre impossível história da fotografia, a uma ordem antiga que é a da tradição humanista, que desde sempre a ocupou, ou de que ela se ocupou desde sempre, ou que até terá nascido com ela. Uma ordem a que pertenceu Brassai, mais do que Cartier-Bresson que, mais do que dos homens, se ocupou e deteve em coreografias e em geometrias que a luz desenha. A que se exprimiu em quase ingénuas, cómicas imagens de Lartigue, ou Willy Ronnis, mais do que nas de Robert Capa, onde o humano já declina, ajoelhando-se diante da tragédia, da manifestação insensível do monstruoso, seja este o da guerra ou o da natureza. 

Um olhar assim, decorre da convicção de que existe, algures, aquilo a que Edward Steichen chamou, um dia, uma família dos homens, e é por isso que Igor não quer, nem procura jamais, contemplar o enorme, o excessivo, ou o gigantesco. Este olhar aconchega-se, portanto, àquelas zonas intimistas onde suspeita repousar, quase esquecido, o detalhe, o pormenor, onde a luz converge sobre um fruto que se casa com a sua sombra, ou um pequeno gesto se esboça, creditando quem o lança de um compromisso com o seu próximo, mas jamais com o distante.

Pode ser uma mulher que se inclina, junto a uma janela, procurando a luz que a ajuda a desenhar, no linho todo branco de uma toalha, um caprichoso bordado; ou simplesmente um cão que, aconchegando-se ao portal estreito da casa a que pertence, fiel, fareja no ar da tarde uma brisa que sobe pela rua. Ou pode ser uma sombra que repete, no lajeado do granito, a sofisticada sombra de uma simples grade de ferro, quando o sol a empurra até ao chão. Pode ser o espanto das crianças face às possibilidades do jogo num mundo aparentemente feito para adultos, ou a espera esquecida de um corpo amarrado às graves memórias da sua idade; um carro puxado por um burro, a afastar-se por uma estrada que conduz ao passado, ou os desenhos que o vento deixou apenas esboçados sobre a areia macia. Mas o que na verdade importa ver, e logo reconhecer, é que alguma coisa as une, a todas essas potências de imagem, já que, aos poucos, elas constroem a forma própria de um olhar que se distingue. E que, afinal, é a forma desse olhar o que, em última instância, reina sobre um mundo cuja revelação ele não cessa de procurar, como se para o confirmar numa ordem de sentido. Um olhar que, depois, e ao reencontrá-lo figurado em imagens susceptíveis de partilhar, o afirma, enfim, como mundo existente, possível, particular, porque recortado sobre o geral, significante do olhar que o encontrou, a esse mundo que assim mostra e que revela a todos como se pela primeira vez. 

A fotografia é, decerto, de todas as artes, aquela que mais longe levou a ideia de democratização do olhar. A paradoxalidade dessa democratização consiste no facto de a fotografia ter permitido afirmar o particular de um olhar sobre o geral de um mundo, constituindo-se, desde logo, como um direito de decisão que se afirma como distinção em relação ao demais. De facto, todo o olhar se constrói sobre o que são os índices de uma soberania. Um olhar é sempre afirmação de qualquer coisa, seja simples ou complexa. E julga mal, sendo assim, todo aquele que pensar que, por ser modesto o timbre de um dado olhar, ele se torna, por essa razão, submisso. Porque mesmo na submissão se exerce sempre a forma particular da soberania, se ela procura acordo naquilo em que se poisa e em que se detém, e nisso confirma o que a ditou como forma primeira desse olhar. 

Do mesmo modo que o olhar do tirano pode ser toldado da piedade, se acaso acerca o que o comove, o que secretamente o faz esquecido da sua convicção no mando.

Por tudo isto, digo eu, as imagens de Igor Sterpin, mais do que testemunhar o mundo tal como ele é, ou parece ser, que se acomodaria confortável no campo de certos foto-jornalismos, procuram antes surpreender, como um recorte confirmado, decidido, o que, no mundo que revelam, esquece o todo para desenhar, antes, uma forma intuída dele.  A forma intuída, apenas suspeitada, de um outro mundo, também ele mais pequeno, mais sensível, mais apreensível como inteireza que, justamente por se recortar do todo de que é parte, se pode contar, ou mostrar ao olhar de uma criança. Tal como se pode contar uma história de família, mas não a de todas as famílias com que nos vamos deparando. 

Um mundo, este, que não se quer demasiado grande, ou visto como um todo imenso, nem se deseja tocado da violência de certas verdades que também nele acontecem, mas que antes procura justificar, ou reflectir, a forma de um sentimento que o olhar, depois, transporta até ele, tornando-o assim visível aos demais. 

E, também assim, essas formas de o olhar vão capturando, dele, numa economia sensível, cúmplice e a seu modo animada de uma convicção, certos sinais do espaço e do tempo, da memória e da própria matéria. O seu espaço é, assim, sempre aproximativo de um enquadramento que exclui o imenso para se centrar no próximo, numa escala que os passos podem, sem esforço, percorrer. E o seu tempo não é jamais o de algo que poderia estar para acontecer, como se vê sente nas imagens de Atget, como antes um tempo do já acontecido, do que se fez já repouso e quietude, serenidade, calma, ou simplesmente espera do que se conhece. Nem a sua matéria é, tão pouco, a de qualquer convulsão, como a dos vulcões, ou dos desertos, tais quais se vêm em certas fotografias de Irving Penn, nem a sua memória é a de uma idade da terra, ou a do tempo de uma guerra, como antes a de um olhar que antes perscrutou, muitas vezes, essa mesma quietude e quis repousar nela. Como, em uma delas, um barco repousa, abandonado, na claridade branca e macia da areia de uma praia.

Poucas coisas há que testemunhem tanto da psicologia humana como a fotografia.

A fotografia conta, quase despudoradamente, o modo como aquele que a executou pensa e sente e intui no mais profundo de si mesmo. Mesmo se não o conhecesse, eu diria que a fotografia de Sterpin nos revela um homem ao mesmo tempo sensível e melancólico. Um homem da tradição desses que, todos os dias, ajudam o mundo a continuar sobre as suas mais sólidas calhas. Os que, passando tantas vezes desapercebidos, constroem todavia a glória dessa humanidade anónima a que todos de facto queremos pertencer. 

Não é um olhar que surpreende o heróico, o excessivo, o inesperado ou o excêntrico. Não é o que procura o excepcional, o grandioso, ou o que quer impressionar quem o acompanha com sentimentos de estranheza, de espanto, muito menos de medo. Este olhar é, antes, o do homem que se sabe pertença de um mundo muito maior que ele, e que por isso não o quer ver feridor de uma exaltação que lhe apareceria como inconveniente e supérflua. O olhar de Igor Sterpin sobre o mundo à sua volta confirma esse mundo no que ele tem de melhor. No ser como é, a cada dia, serenamente igual a si mesmo como os ritmos das estações, assim se continuando desde sempre. 

Não se procure nele, portanto, o vestígio da perturbação. Olhando o mundo tal como ele é, e se figura, este olhar ganha a melancolia precisamente do facto de reconhecer, sempre, uma imanência com a qual se comove e se confirma, tal o olhar da criança se avista o da mãe que se acerca é tocado de uma serenidade que não precisa de grande exclamação ou ruidosos festejos para comunicar, nele, o vínculo que os liga, apertados.

O olhar de Igor Sterpin prefere deter-se sobre as pequenas coisas precisamente porque suspeita, no que é grande, de uma essencial inumanidade, que detesta, e de que se quer afastado. E por isso observa, com a atenção demorada do entomologista ou do botânico, o modo como o particular se exerce no mais próximo, recortando-se, com justeza e exactidão, sobre o caos do geral. O modo como a cortina se desdobra sob o vento da tarde, como o cão olha, como a mão pousa sobre um joelho, ou a criança ri, distraída, para tudo quanto vê. O modo como a água serena junto à margem, que bebe dela, ou como a mão se estende sobre os olhos protegendo-os da luz excessiva que não deixa ver. Também este olhar se quer de algum modo preservar de uma luz excessiva que pudesse cegá-lo, ou impedi-lo de ir ao encontro das imagens de um mundo tido por generoso e acolhedor.

Esse olhar particular é, creio, a afirmação de uma essencial humanidade, que nele se preserva, mas cuja preservação nos ajuda também a ver o mundo de outro modo. Num tempo e num espaço cada vez mais inundados, quotidianamente, pelos augúrios mais assustadores, este olhar, que desconfia do excessivo, e que sabe que o próprio do mundo, antes de os humanos a ele chegarem, era a serenidade, procura constantemente o que nele é sentido de um essencial reencontro com essa luz primeira. E, encontrando-a, mesmo que em breves reflexos, devolve-nos, dela, uma imagem sossegada.

Por olharmos para ela, também os nossos olhos chegam, mergulhando até ao fundo em quanto nos mostram, a compreender a dimensão essencial dessa serenidade que nos faz desejosos de nos tornarmos habitantes não de uma tragédia, mas de uma inteireza maior e talvez mais essencial. 

Por tudo isso, as imagens de Igor Sterpin conduzem sem, todavia, se quererem pedagógicas, ou propagandísticas do quer que seja, por um caminho que leva até uma sábia intuição. Talvez mesmo a uma ética. A de podermos viver no mundo como uma parte dele, pertencendo-lhe por inteiro, sem jamais dele nos querermos excluídos.

Nesse sentido a sua fotografia cumpre aquela que é, justamente por ser democrática, uma das tarefas maiores da arte fotográfica: a de nos reconciliar com a vida e com os outros, a de nos chamar a atenção para o particular, ao mesmo tempo que recorta, nele, um índice do geral, tal como em cada ser humano, individualmente, podemos, sob a dimensão do olhar amoroso, reencontrar a humanidade inteira. A nossa.

Bernardo Pinto de Almeida